E pronto. Ficam aqui esclarecidas as linhas gerais próprias de um pensamento de origem marcadamente rasgada e abstracta, passando pelos ecos silenciosos do telúrico e da raiva – positiva – perante a própria existência. A tartaruga, agora tão distante, parece até normal, aborrecida até, perante o que se avizinha. A realidade, na sua presença forte como uma pedra que tem (terá) sempre algo a dizer, impõe-se sempre… – das maneiras mais incríveis. Não há que negá-lo nem negá-la, e não há que desprezá-la, pois a ela voltar-se-á sempre no fim das coisas todas que acabam, como único (infelizmente, talvez? Desanimadoramente, talvez?) reduto, como único refúgio, mas se a sorte e a pujança de viver o permitirem, o sonho continuará sonho, e as fronteiras permanentes continuarão alcançáveis, sempre, pelo menos em teoria.
“Não nos podes matar!” diz o hipopótamo (que enfim, para os mais atentos, não morreu nem nunca morreu, sendo-lhe dado aliás lugar de destaque no futuro), “então e nós” diz a rapariga da vagina cortada, vira a cabeça Elisa sem o dizer com o seu cabelo vermelho-laranja aos muitos caracóis (apenas uma das infinitas versões que ela apresenta pelos dias que passam por aqui, e por aí, e por lá fora), observa a tartaruga bípede caolha, ; e esta proto-realidade quasi realismo mágico, quasi (sem dúvida, não quase!) surrealismo dentro da própria normalidade da realidade comum? Pois, o tempo, à falta de melhor consideração e para os estados da arte, é sempre uma espiral – ainda que, também nos estados da arte, sempre incompleta e sempre imperfeita, mas uma espiral ainda – à qual far-se-ão, através de ecos, retornos para um presente que nunca verdadeiramente acaba, como outro eco que não se dispersa, nem se desvanece, do centro da própria espiral. Portanto tudo é eterno e isto também ficará aqui e tudo voltará sempre.
Mas e, e…enfim a realidade real, sem subterfúgios, tudo isso, todo tu e todos vocês os dois, hã, e depois, esse depois quando nos é dito que já veio?
Mas ora, é bom nunca ter respostas para tudo.
Tenho agora 11 anos e nunca na vida me senti tão apertado entre as roupas. Dizem-me que estou bonito mas tanto me faz. Estou só à espera para sair. Lá fora dois SS esperam num jipe. Vão fazer a guarda do meu pai. Logo ele, tão importante, logo ele, que está prestes a sair do quarto, austero, inquebrantável na sua farda, como se o mundo só pudesse girar com a sua aprovação. Há muito que eu já estou pronto. Relembro-me de todos os conselhos; com quem devo falar, como devo cumprimentar, e vou cumprir tudo à risca. Sei, no entanto, que não faltará muito até nada disto importar.
É Novembro, em Berlim, 1939
A sala de concertos é imensa. E neste momento, a caminho das suas cadeiras estão as mais altas patentes do Estado e do Exército. Estamos prontos. Esta noite a orquestra vai encarnar Wagner. Algures na Alemanha, à mesma hora, são as carnes dos mongolóides que vão começando a cheirar a queimado, limpando o Reich dos seus incómodos.
Tenho 11 anos, estou em Berlim e eu não sei nada do que vai acontecer. Daqui a uns anos terei uma última granada na mão, estarei escondido entre as ruínas à espera de emboscar um tanque russo que se passeie vitorioso. O meu coração vai bater com toda a força enquanto espreito, escondido. Eu espero, também agora eu espreito. Não falta muito para nada disto importar e mesmo assim a única coisa que agora quero é deixar todos estes adultos orgulhosos. Mas eu vou ficando. Sei tanto que o meu corpo já me dói, falta tanto, falta pouco.
Sou novo de mais, quero pensar que é por isso. Mas a máquina do Tempo não se detém por mim, um dia pensarei o mesmo, quando tiver os olhos fechados, no escuro, as sirenes, um dia. Nada vai parar sem se alterar: Wagner já não o é, e tudo o que me sobra é existência; a música, sempre presente nestas cidades sem voz, tenho agora a mão no bolso, passo com o polegar ao de leve n’A Navalha, no cabo a cruz que não reconheço, no que sei que já deixei. Não é por nós que os momentos vão parar. Ela vem, vejo-a bem, já não tenho 11 anos e consigo vê-la. Vem
My face is finished, my body's gone. And I can't help but think standin' up here in all this applause and gazin' down at all the young and the beautiful. With their questioning eyes. That I must above all things love myself.
I saw a girl in the crowd, I ran over I shouted out, I asked if I could take her out, But she said that she didn't want to.
I changed the sheets on my bed, I combed the hairs across my head, I sucked in my gut and still she said That she just didn't want to.
I read her Eliot, read her Yeats, I tried my best to stay up late, I fixed the hinges on her gate, But still she just never wanted to.
I bought her a dozen snow-white doves, I did her dishes in rubber gloves, I called her Honeybee, I called her Love, But she just still didn't want to. She just never wants to.
I sent her every type of flower, I played her guitar by the hour, I patted her revolting little chihuahua, But still she just didn't want to.
I wrote a song with a hundred lines, I picked a bunch of dandelions, I walked her through the trembling pines, But she just even then didn't want to. She just never wants to.
I thought I'd try another tack, I drank a litre of cognac, I threw her down upon her back, But she just lay up and said that she just didn't want to.
I thought I'd have another go, I called her my little ho, I felt like Marcel Marceau must feel when she said that she just never wanted to. She just didn't want to.
Os segredos mais belos ficam melhores quando partilhados
Sejamos claros: de todos os álbuns que ouvi no ano de 2007, tenho já um melhor que todos os outros, que ultrapassa sem sombra de dúvidas os que já ouvi, e irá, tenho a certeza, fazer o mesmo com os que até hão-de vir (e já conto com o novo dos Mars Volta, agora em Outubro). Esse álbum é só um álbum, mas que álbum.
Esse álbum chama-se Bavarian Fruit Bread, e é o primeiro projecto a solo de uma menina chamada Hope Sandoval.
Sejamos parcos em introduções e não mastiguemos as palavras…: A música é divinal. É algo que nunca ouvi em outra qualquer banda, em qualquer outro lugar. É algo que nunca encontrei antes. Que dá vontade de chorar e de sorrir ao mesmo tempo. É absolutamente…perfeita. Perfeita.
Descobri o álbum perfeitamente por acaso no blog do Pedro Mexia, Estado Civil (desde já, o meu muito obrigado… não o estendo, porém, a the national, mas sei que aqui falo maioritariamente sozinho), num clip que ele deixou da música Drop – a primeira do álbum de que agora falo. Adorei. Pareceu-me fantástica. Pus logo a sacar, procurei na fnac. Mas Deus, o quanto demorava. Enfim, conversas à parte, consideremos todas as hipóteses. And then some. Tudo sabe bem. Bem. A velocidade das canções, a voz etérea e de menina, da menina – um pormenor com uma harmónica flutuante aqui e ali. Cinco estrelas? Seis ou sete. Não é música triste, não é música down – é simplesmente música bela. Despida de estilos, ou preconceitos, rótulos ou lucubrações. Tudo sabe bem – é incrível; não há nada mau ali. Tudo é belo demais para ser maculado, mas tudo merece ser observado e saboreado, com doçura, incansavelmente. É uma sede nunca saciada, mas deixada a adormecer, dia, após dia…
São dez canções. É a menina Hope Sandoval com o vocalista (ou será guitarrista? E será que me interessa?) dos My Bloody Valentine. Já por aí se pode ver qualidade. Mas isso não quer dizer nada. E ainda assim quer dizer pouco, quando falamos deste disco. É música para Sempre, para tudo, para Todos. É o meu salvamento no meio de uma tempestade, é o alívio, e o melhor Silêncio, numa viagem de madrugada de volta a casa no carro. É o presente que se dá ás pessoas de quem se gosta: deixa-me mostrar-te a beleza como eu a sinto. Deixa-me mostrar-te o que é uma coisa bela. E depois mo dirás. Mas antes ouve. Não desistas à primeira. Ouve muito. Ouve até entrar. Ouve até Perceberes. Ouve até te perderes. E depois encontra-te nas canções. Para te poderes deixar perder outra vez.
Agora fiquei preso no amanhã. Penso ver-te, então. Nesse dia que tenho imaginado. E quase que hesito com a ideia. Mas irei para lá rapidamente, se o desejar. Quero-te assim. E vou desesperar quando te vir partir. Sei que tenho pouco tempo para decidir, sei que te afastas enquanto me repito neste círculo que não me ensina a esperar, a pouco e pouco começo a pousar as máscaras, uma a uma, despindo-me de tentativas, recusando-me ao subtil prazer da ilusão. Já longe caminha a demora. Estou aqui |Parado| a um pequeno passo da luz deste candeeiro, vou um pouco mais, aproximo-me tanto com um pequeno passo, agora quase. Não te vejo mas entendo o teu corpo, não estás perto mas só penso em tocar-te. Pede-me que ande _______________eu vou, irei até ti se ao menos esperares, tu e eu, imagino tudo, já juntos com tão pouco a recordar, tu e eu, se ao menos quisesses esperar por mim nesse escuro onde te sinto apagada. Vejo tão pouco à minha frente. E preciso tanto de ti. Eu chamo Eu sei que chamo. Sem a raiva, sem o choro eu volto atrás no sentir, estou ainda preso nesta piada idiota, por que raio não me respondes, já vais, eu sei, não importa o quanto eu queira gritar porque sei que te vais embora e eu não me canso de acreditar. Com tudo o que tenho e sou em mim, eu só penso em acreditar. Se não te fores eu serei melhor, se ficares, acredita comigo, talvez por invenção do acaso se consiga enganar este sentimento de ausência. Eu posso. Sabes que sim. Sempre acreditaste nisso. Sempre o foste comigo. não tinhas de não ficar. Não tinhas de te ir embora, olhar ligeiramente para trás onde eu e a luz que agora se esconde atrás de mim acabámos por estacar. Eu não irei. Vou ficando por aqui. Sempre a pensar, quase abandonado de mim próprio, vou ficando neste lugar onde o amanhã me mantém preso apenas por não chegar.
último dia de férias, última noite com os amigos, último resquício do "verão" de 2007. Portanto, apenas isto: Se por cá postei pouco, é apenas pelas melhores razões possíveis: por ter sempre alguma coisa que fazer, por nunca estar em casa à noite e ficar a dormir de manhã (como eu não suporto escrever de tarde...), chegar à conclusão: foi um óptimo Verão, acabou muito bem.
Amanhã caloiras, caloiros, e o resto. Há vida para além disto?
Há; e mais uma despedida para Erasmus; amanhã. Começo a conhecer bem o aeroporto.
J.
E deois íamos todos despedirmo-nos. E antes ou depois eu voltava. Mais ninguém. Mais ninguém. Milhares, há milhare sd enostalgias diferentes; e nehuma delas significa nada. Mas eu sei que não fui feito para etsar sozinho. E, pela primeira vez na minha vida, é a uma conclusão que chego com certeza.
Coming up: navalha 1.2. agora com mais músicas, vídeos, imagens, e doce de tomate.
Casamento ontem. é o primeiro dos meus amigos que se casa. a igreja no sítio onde não conhecemos, o padre simpático que faz piadas, a esmagadora maioria das pessoas que nunca vimos. O meu amigo era solteiro e já não é. E é meu amigo , e será pai, e será um pai. Vai ser um pai em breve. Penso: já não sou novo. Já tenho idade para isto, para estas coisas, para me casar ter filhos, escolher os fatos e os envelopes que vou mandar aos convidados. (Ou; - já não sou tão novo) E a tenda, e os acepipes, e um ou dois membros no casamento que bebem sempre mais um pouco, e as pessoas novas que conhecemos porque nos puseram num mesa onde não conhecemos ninguém. Onde talvez não seja suposto! conhecermos ninguém. Enfim, como gosto de dizer: consieremos todas as hipóteses e não mastiguemos as palavras. Não sei se quero ficar com alguém para sempre. E no entanto quase toda a gente se casa - quase toda a gente quer. Porque é isso o que o casamento é, correcto? fazer-se a cerimónia que simboliza que iremos ficar com aquela pessoa para sempre. A ideia é suposto ser assustadora, mas suponho que se amarmos assim alguém perdemos o medo todo. Simplesmente: Eu não sei se me quero casar. Mas talvez queira ficar com alguém para sempre.
Ao fim e ao cabo, já começo a ter idade para essas coisas.
Murcharam - afirmo-o agora – O melodrama da morte da beleza assim o quis por ora, Impera pois sobre a vontade Resta o prefixo da vida: nascer que na sua versão que também na sua beleza contempla o Belo e o Horror e as suas formas confundidas.
Lisboa está na mesma: o que é terrível e fixe ao mesmo tempo, mudam apenas os cartazes de publicidade, e é como se nunca tivéssemos saído. Encontrar um sítio diferente quando regressamos, não é o que pretendemos, é tão estranho? O calor e a humidade, e os lamentos e chiares das bordas dos passeios e das pedras solitárias. Acho que já vi isto em qualquer lugar.
Hoje deve trovejar, e eu vou imaginar alguns diálogos. A Europa sempre Europa, ou o resto dela – a aldeia dos meus avós sempre a aldeia dos meus avós, e frio, muito frio.
Acima de tudo, por onde recomeçar? Acabei por fossilizar um pouco as minhas pretensões de continuação atrás de noites mal dormidas, suor na testa todo o dia e toda a hora, dentes a estalarem e risos tossidos, o que eu estou a tentar dizer foi que sentia todos os dias ao final do dia a parte de trás dos olhos inchada nas órbitas pulsando, pulsando, a sério literalmente, com o que demasiado tinha visto, todos os dias, pronto para dormir mal chegue a casa e volte a levantar-me depois da pausa para voltar a ficar sem ar lá pelo fim da tarde e ainda enfrentado a noite que vinha aí. O diabo também anda por aí a coleccionar as almas das mulheres.
Eu e o P. Eu e o P. claro.
As coisas ainda andam assim e ainda estão assim, e é precisamente por isso que a navalha TEM que continuar, observando esta transmutação primal de duas almas vencidas pelo passar do tempo e da própria existência do nosso corpo, e regressar, porque: é Setembro. Mesmo que assim seja claro, posso estar e devo estar enganado, o que também é positivo, mais ainda.
E bem, ao fim e ao cabo – não vamos a nenhum lugar.
não Há por aqui um único grito. Sobra apenas o toque discreto, de suave loucura. um ritmo de pausas e nada de frenético nas noites que se dividem entre o choro e o sono. hoje a alucinação chega sob a forma de uma cantiga.
– estala-se o pescoço num movimento brusco. é altura. Há sempre uma altura. houve sempre uma altura para qualquer pessoa, em qualquer história. Há sempre uma franja de tempo que preenche os caprichos do destino. eu não acredito no destino. não acredito na sorte. não acredito no esforço. e quase nunca acredito em alucinações.
– acredito que tudo se arrasa. Seja uma cidade, o coração, ou o sistema nervoso. algo há que nos leva a treinar o esquecimento. que nos ensina o tédio para o poder trabalhar. quando me sinto assim, Há sempre algo que não me abandona – não lhe chamo amor. algo bruto, peço. um retorno – sonho.
Hoje fui ver a exposição Berardo, no CCB, já que estava por lá. No fim da exposição, entrei num café ao pé do museu da marinha, por acaso, já que o plano era ir para a casa dos pastéis de Belém. Enquanto decido o que comer para lanchar e via o meu dinheiro, olho de repente para trás e vejo um velhinho sentado numa mesa redonda, muito curvado, com uns livros na mesa, outro na mão esquerda, e a escrever gatafunhos numa folha branca e lisa, um poema. Era o António Ramos Rosa. Decidi por momentos como me deveria dirigir a ele: se senhor doutor, se professor, se Mestre (mestre teria sido o mais certo), mas já me tinha inclinado porque teria que dizer alguma coisa, não sei porquê, e disse Ramos Rosa, era só para lhe dizer que admiro muito o seu trabalho. Só um momento, só um momento, disse muito baixinho, enquanto olhava para mim com os olhos muito abertos; por momentos tinha ficado tão surpreendido quanto eu. Claro, peço imensa desculpa. Ele estava a trabalhar. Sentei-me na mesa ao lado dele. O café ia fechar, às seis. Um dos empregados virou a tabuleta na porta grande de vidro e um casal de brasileiros que pediu gelados para os filhos veria nele mais um velhinho. Não acabou o bolo que estava a comer. De vez em quando fazia trejeitos com a boca, como se estivesse a engolir a parte de trás da língua. Usava uns sapatos talvez cinco números maiores que os pés dele. No fim bebeu o sumo, levantou-se devagarinho, e uma das empregadas pôs-lhe o bolo inacabado num saco de papel, e ajeitou-lhe as calças e a roupa. “Elas descompõem-no todo, António!”. Ele riu-se muito baixinho. Levou-o ao táxi que estava à espera dele lá fora, andar devagar, curvado por uma corcunda de velhice. Esqueceu-se de mim, certamente. Quando estava a entrar no táxi, cheguei à conclusão que nunca mais o ia ver, que era a última vez que o ía ver com vida. Sentou-se, afundou-se nos bancos quase como um menino de seis ou sete anos, por baixo do vidro de trás, e foi-se.
As férias são bonitas. Eu tenho uma féria. Quando fica chateada é uma fera. Chamei-lhe pantera. Era a minha féria.
As roupas são diferentes e o suor escorre como um by-product do nosso sono e fertilidade. Yeah! Não sei mais. Mas gostava de falar sobre aquela mulher louca que vi ontem quando estava à espera do comboio em sete rios. Mas antes também quero falar sobre o silêncio e a impossibilidade de escrever. O silêncio é uma merda. Odeio não escrever devido ao silêncio mental do –
Exactamente. É difícil de imaginar que este é um post assim tão feliz, assim tanto feliz? Ontem vi uma mulher loira pequena entre os vinte e muitos e os trintas na estação de comboio a falar sozinha com duas pessoas á frente dela inexistentes, um homem e uma mulher; era louca, e eu
Acabei por sorrir-lhe a ouvir a sua conversa de louca nas suas vozes de louca na minha tarde de sol; foda-se, que calor!
Entrei em férias, mas não me sinto livre. Passei a tudo, fiz todas as orais, mas não consigo considerar os próximos dias sem estudar. Saí à noite para comemorar, e tudo o que sentia eram as minhas olheiras a pulsarem entre os finos. Ouço as histórias, canto as músicas, meto a quinta, e continua tudo o mesmo, tudo igual, à espera.
Virou-se e nunca mais se viu. Esta ideia, ou esta imagem, dela a virar-se e desaparecer – quem é ela? – sempre me, sempre esteve comigo. Frases, estas pequenas frases, estas pequenas imagens imaginadas por uma mente irrequieta, que ás vezes não tem mais nada que fazer, no comboio. A verdade é que não sei bem o que escrever a não ser estes pequenos farrapos, quase inúteis –: Mais uma oral, feita, mais um passo para qualquer caminho que vá seguir. Era tão bom que ninguém me dissesse qual. Sentia-me sinto quase como uma espécie de guerreiro – tão estúpido, parece. (sendo que a escrita é a minha verdadeira couraça); mas é como me sinto. O próprio uniforme: se dantes era uma cota de malha, um capacete, uma espada e um escudo, hoje temos fato, camisa de punhos, sapatos especialmente engraxados, uma gravata ao pescoço – e as nossas armas, os códigos e os regulamentos que é suposto manejarmos com mestria para derrotarmos os nossos adversários. E sobreviver a mais uma batalha, nesta longa guerra. Tenho vencido estas batalhas, umas outras – tenho-me lembrado dos conselhos e das histórias que os meus amigos me contaram, e tenho-me lembrado, sobretudo, do passado próximo para não me esquecer como a felicidade, a felicidade mínima, sabe bem. O pequeno contentamento. O sorriso de cansaço depois de um longo dia. Sou um jovem mas a prosa seria a mesma se fosse um velho. E deixaria a minha barba branca contar as suas histórias, e esconder algumas das minhas cicatrizes. Os mitos. Os amigos. Algumas despedidas, talvez. Penso que tudo isto faz parte. E gostava, gostava de dizer – este é um texto feliz. E é. Este é um texto, tão feliz. Daquela melhor felicidade, a felicidade melancólica; aquela; a única, que nos faz sentir saudades de alguma coisa qualquer – que nem nós bem sabemos. Essa é a melhor felicidade. Virou-se e nunca mais a vi. Mas sei que tinha acabado de estar comigo, e o meu nome ainda estaria nos seus lábios.; Quem é ela. Ou quem era ela, ou quem será ela, ou será que é apenas uma imagem que nunca verei. É uma imagem bonita, ainda que irreal, ou impossível. Virou-se, e nunca mais se viu. As possibilidades do seu depois também me atraem. O porquê, sempre o porquê. O nó da gravata bem apertado. A parede com os contornos do nosso corpo encostado, à espera do B.I de volta. E enfim, é Verão. Agora, é sempre Verão e toda a gente feliz cheira a praia e a protector solar, a areia quente e a maresia. Todas as miúdas que sempre achámos giras e simpáticas têm sal nos cabelos. Todos os seus olhos brilhantes do Sol irradiam até nós com a força das possibilidades infinitas. E tudo o resto são Imagens. Mitos. Amigos. São pequenas frases, ou farrapos de imagens, que até podem não significar nada – mas para nós, terão sempre, sempre; sempre. Todo, todo, todo. Todo o significado do mundo.
As mulheres vestem-se de tinta e de aves para voar por dentro, os homens despem as suas paisagens inscritas no corpo para voar por fora As mulheres não ousam suspirar, os Homens falam quando passa mais um presságio quente. Abraçam as mulheres, ajoelham os homens, enquanto cai Um arquivo andante; Forma de homem para os homens que o encontram logo, forma de touro para as mulheres que o procuram no limite da sua juventude entre palácios. Chegam as mulheres; Dos homens, as pernas ficaram cotos, mas as Mulheres ainda sabem O que está por trás das portas e dos mares subterrâneos de ar congelado, os homens esperam apenas ter sorte lambendo as montanhas de cinzas das caves escuras e tostam aoSol marcado, pegam nos sinos as mulheres para poderem badalar os homens de prazer feminino. Ajoelham-se as mulheres com aço nas íris e dançam os homens em silêncios interiores, vestem-se as mulheres e curvas substituem pêlos. Os homens ganham pinças, pirâmides e pedaçoes de ventanias; as mulheres entram para poças translúcidas na erva , param as buscas desenfreadas que a caracterizavam. Os homens nascem deixam que as mulheres os vejam enquanto nascem das escamas de crocodilos gigantes, rezam as mulheres por mais abismos. Saem de quadros, provam o sangue terroso fermentado com nuvens da imaginação incolor dos homens. Suspiram as mulheres expiram os Homens Inspiram
hesito entre Bavarian Fruit Bread e Era Vulgaris. Ambos tão diferentes e ambos tão quase perfeitos. falta apenas aquele bocado. Dar um pouco mais de sentido à calma latente, ou ao caos sempre à espreita detrás das frestas dos prédios que chapam este Sol de Verão, que parece que me querem derrubar.
Escolho Bavarian Fruit Bread: Around My Smile. Mas não chega. You tube: versão live. É isto tudo a vida? enquanto esta canção toca, parece. Hope Sandoval: é muito bonita. Estou certo que os meus colegas na faculdade discordariam. Já não é assim tão nova: mas como a imagino é sempre no Sometimes, Always, frágil e a cantar de casaco de cabedal preto. Usamos casacos de cabedal preto quando somos novos, mas já não demasiado novos. Quando é que vai ser a altura em que vou deixar os meus casacos de cabedal no armário, depois do último Inverno? Qual será esse meu ùltimo Inverno?
A forma como ela murmura faz-me querer fazer um poema em que só escreva murmúrios semelhantes. E depois penso logo, João, nem contigo as onomatopeias ficariam bem numa estrofe. True... e, ainda assim: apetece-me falhar redondamente. Ser um aprendiz desse tipo de beleza que nunca tinha imaginado até sentir a música. I'm gonna suture up my future, he said. Talvez uma crise de meia-idade. a minha talvez seja de fim de adolescência. Será que isso existe? Será que isso foi documentado? enquanto o meu cabelo fica cada vez mais curto, e a minha face cada vez mais cinzelada? Se é que isso é possível... Eu não sei grande coisa. Presumo muito. A música sabe bem. E era o que eu gostava de fazer. Escrever e fazer música toda a vida. Ter o prazer de falhar e começar de novo. Fail. Try again. Fail better. Something like that. A hope Sanodaval continua a murmurar-me, enquant canta.
Nestas alturas, quase que estou certo que ela me está a dar, nesses murmúrios cantados, as respostas para todas as perguntas que e tenho colocado na vida.
You know the day destroys the night Night divides the day Tried to run Tried to hide Break on through to the other side Break on through to the other side Break on through to the other side, yeah
We chased our pleasures here Dug our treasures there But can you still recall The time we cried Break on through to the other side Break on through to the other side
Yeah! C'mon, yeah
Everybody loves my baby Everybody loves my baby She get(s high) She get(s high) She get(s high) She get(s high)
I found an island in your arms Country in your eyes Arms that chain Eyes that lie Break on through to the other side Break on through to the other side Break on through, oww! Oh, yeah!
Made the scene Week to week Day to day Hour to hour The gate is straight Deep and wide Break on through to the other side Break on through to the other side Break on through Break on through Break on through Break on through Yeah, yeah, yeah, yeah Yeah, yeah, yeah, yeah, yeah
E as minhas pequenas férias acabaram. Deve ser do fim da tarde ou da música estupidamente calma e luminosa que toca, de uma miúda com voz de anjo, mas não me sinto como há um ano: cansado, esgotado de um ano que não foi o meu, um bocado perdido entre os dias do início do Verão. Parece que estou a viver mais, agora - ou que, pelo menos, estou com os pés mais assentes na terra; talvez a pensar no que mais importa. As orais - esse terrível bicho. parece-me tudo tão longe e tão distante, e tão fácil... tão óbvio. O estudo que sinto que vou ter que fazer - quase sem esforço, quase sem nenhum esforço. O fato que não me vai pesar, o nó da gravata perfeito, um café entre as espera das notas e outra coisa qualquer. Dois dedos de conversa para contar pequenas histórias, pequenas vivências dos guerreiros verbais todos que passam por mim. Estou passado. Budapeste, Viena, Praga, o que vier virá. Sambade depois, sempre tão bom, e o estúpido mistério permanente de Setembro. Nunca sei o que faço em Setembro.
O pc estragou-se do nada. Um gorgolejar de sangue de computador, ou um asfixiamento que não ouvi, a paragem cardíaca de uma ventoinha, a morte por tristeza da motherboard, ele não soube o que foi, mas sabia que não se ligava mais, se ele tinha pedido ajuda, implorado antes dos segundos finais da morte, ele também não ouviu. Só sabia que estava morto, e que precisava de vida nova. Dêem nova vida ao meu computador, pediu ele aos deuses, dêem-lhe uma alma nova, mas mantenham a sua própria memória e a memória do que era antes. O computador foi embalado como um defunto na placenta de cartão que o viu nascer, e confiscado por mãos que nunca souberam o que ele significava para os que o amaram.
Os exames também foram brutais. As paredes ao pé dos anfiteatros vibravam com água e suor e nervos dos alunos, resfolegantes, angustiados, os sorrisos de quem não quer ver ninguém despido. Os tudo bens! Os como vais! Deus, sinto falta daqueles tempos, dos cinco minutos antes dos exames. Se pudesse voltar atrás para fazer a faculdade de novo fá-lo-ia só por esses momentos, os verdadeiros para os quais o aluno vive. Estava a ouvir música quando me chamaram. - Já sabes meu, já sabes?? - Não. - A minha inocência acabou de morrer agora! E saltavam, saltavam depois de um exame com as olheiras a bocejarem nas suas caras com diamantes de percevejos. Dinamene, disse eu. Que se passa com estes? - Acho que inventaram uma nova teoria que destruiu por completo a base inteira dos direitos reais. Saímos, fomos a bares, bebemos kalimodjo porque somos pobres e não, não conseguimos ter outros nomes que não estes, as motas ficaram em casa, os barcos só os daquele tio que não é bem nosso, dancei com um copo na mão a noite toda enquanto a minha gravata ondulava e o meu cabelo molhava, molhava e molhava o chão da discoteca pegajoso em rodelas de limão e testosterona perdida no meio da selva de luzes alucinantes. - Os exames, os exames!! Voltei a esquecer-me de quem era, e sentia-me como um guerreiro cuja arma é a caneta bic na mão (vamos beber até morrer, ou até esquecer)
- Oh, estou a curtir tanto Entretanto, o meu pc ainda não voltou. Uso o da minha mãe. Ninguém poderia pensar que o meu velho teclado seria assim tão velho. Ninguém poderia pensar que eu sobreviveria. - Mas sobreviveste, disseste-me.
Não finjas Que eu não estou vivo Os meus ossos nunca doem A não ser que ela esteja perto Onde está a tua cara Num cofre de línguas mortas Consigo ver o teu reflexo No teu totem primogénito Eu suspeito Que tens carregado uma alcateia de lobos Eu lamento Não te ter morto quando tive a chance (eu sei que tive a chance, eu sei que sim)
Talvez eu sempre te assombre Marca a sonolência com a verdade É melhor enforcares o teu palácio morto Que teres uma casa viva para perder No rio Ganges Deus amaldiçoa o meu nome.
Não deixes que estas mãos Te agucem os olhos Um raspar de Caudas
Vem rapar o cabelo comigo e matar pretos e ter um filho e usar blusões de iodo E pregar com perdigotos o fascismo descansando nas minhas pernas brancas como as vacas das arianas Cheira a púbis e descobre em mim As potencialidades de fazeres Uma criança Chelsea girls and Oi! Boys Cai-nos a ferrugem pelos braços e pelo peito Hitler lixou para sempre um estilo de bigode E agora, agora engole A minha saliva e tens o trabalho feito Uma gaja para ti só como eu e tu.
Mas… Ontem no meu sonho Tinhas um focinho de anjo E movias-te lentamente como uma nuvem Solitária… Eras mesmo tu –, Ou o carbúnculo das margens podres do Reno Por retirar? Saltaria sobre o mundo que está dentro de ti E as minhas mãos atravessariam o teu peito chato Nas partituras, na memória dos metais para dançar por entre as giestas ácidas dos teus germes sentimentais; Chovendo óleo cinzento na coroa ardente Dos teus cabelos agressivos Só para te ter Só para te ter Porque não uma libertação? Um sufoco de glória, um berro Reverberando pelos corredores da mente? (Oh,) Não fujas de mim… Eu morro como o céu Lentamente entre os minutos e as horas Só para te acompanhar
Não, há por aí um dragão qualquer. Á espreita, púrpura, a brincar e a jogar com as luzes e a penumbra. Reflexos dele por aqui e por ali. Velozes olhares, assim às vezes, quando julgam que não estou a olhar. As outras pessoas na rua, digo. São os pólenes e essas cenas todas libertadas das árvores agora em fim de estação: andam no ar, impossíveis de serem evitados, os olhos cegam e as lágrimas misturam-se com aquele vento quente enquanto passamos uma mão áspera pela cara seca; e ele, logo ali, a escapar-se cheio de sorte, menos um momento e tê-lo-íamos visto.
E Julho, que é daqueles meses intermédios. Assim meio estranhos. Não estamos já bem aqui; mas também não chegamos a estar em nenhum outro lugar.
Não, ainda não conheci os anjos Presos como infatigáveis Chuvas às portas da derradeira Insígnia Instáveis as suas penas onde nos reflexos Metálicos das vidas contadas Nos aparos das suas penas Eu morro, Bey-be E tu morres comigo Só eu e tu num inconsiderável Sufoco de luz e ar e Morte neutra Faz-me um filho com o rastilho Da tua mente inimaginável Solta o falcão da orgia suicida
Diz que queres ouvir o meu nome Como os pássaros a gritarem o seu terror Pela terra invertida e pelo Sol E pelos ovos dourados de néctar Fratricida Porque eu já provei a cal Dessas inconstâncias e tu sorriste Antes de caíres Nesse fosso de tintas ardentes Que tatuaram o teu corpo Inerte!
Eu era um malvado E tu uma serpente Cega com o desejo de devorar o passado E vomitar outro algo Só sozinha Só sozinha com as tuas tintas E eu com os meus padrões geométricos a ler A linguagem frustrante do teu corpo Fora de tempo A dançar entre os dois mundos, E um era habitado por um gigante de bronze Que rangia os dentes e me coroava Distante no seu trono de Asseclas Como criados ou escravos da impotência face ao futuro, Nós ríamo-nos O vento soprava casas e suores da noite anterior O desejo puro e o sexo O sexo O sexo O sexo descabido Eu sou um íman Vem conhecer a polarização do meu desejo Tornar-te a minha pastora e percorrermos juntos os caminhos Da poeira e da areia com fogo lambido Nos nossos pés fustigados pela dureza Do caminho Tu a minha mulher e eu o teu homem Ou outro homem qualquer se eu já não quiser aparecer
Perdendo-me entre as tuas mamas doces Vou fingir criar um lar na tua cabeça Sozinho e com fome de degelos e Lagartos que me contem histórias e facas Para eu dizer à Morte Olá, olá Olá Morte Todos te odeiam Olá Quem sou eu Diz-me Morte Quais são Quais vão ser as minhas últimas palavras Diz-me Morte, diz-me! Diz-me o meu último sôfrego E absoluto como um prego bêbado De gritos ou adeuses grito ou adeus diz Diz Diz Danço o teu silêncio para outra altura Outra altura quando as crianças Usarem colares de ossos de animais Que caçaram e ofereceram às anciãs Nas casas dos vintes Mulheres Mulheres e os miúdos com fogo fátuo Borbulhando-lhes no peito, só Mulheres Mulheres Mulheres, Morte E Morte Morte,
Os livros amontoam-se um bocado caoticamente pela mesa redonda da sala dos meus pais. E... a tua mente corre como um profissional, como se fosse há um milhão de anos. Como? Sinto a boca tão seca. Mata-me a sede em silêncio como se a matasses há anos. Vamos fingir, indulge me nesse aspecto, antes que volte a cismar no que não tenho; e me vire, no sofá, e tu e eu voltamos a estar longe como se estivéssemos separados por anos.
Na verdade, estamos só separados por personalidades.
Não é tão estranho? Eu dei tudo de mim para compreender tudo, tu deste tudo de ti para sentires tudo sem o compreenderes. Mulheres. Deus, as mulheres são tão estranhas e fascinam-me tanto. Não compreendo quem gosta de mulheres pelos sentimentos maternais que despertam. O quê? Não. Estamos separados pelas nossas personalidades, e, quanto a mim, só sinto um ardor na garganta e a vista enevoada quando te vejo ao longe.
Mulheres.
Imagino isto: a falta posível de diálogo com a minha outra parte. A possibilidade, ainda que muito ténue, de nos fartarmos da pessoa que amamos simplesmente porque amámos tudo o que havia para amar. E agora? Será que é possível? Os artigos sucedem-se na espiral confusa como me alas a tua língua, através das tuas insinuções e das uas expressões faciais e corporais. Hum... Há muito que dormi para esses aspecto. Saltei de telhado em telhado, foi só isso. A dançares pela casa, pela minha casa (agora estamos no futuo) mas que eu não te conhecesse. Era eu um pintor, eras tu...sei lá, estás com um vestido floral de cores mortiças, rasgado. Foi, parece que foi, e foi mesmo, há um milhão de anos. Os teus gritos no sexo são tudo o que eu quero ouvir. O silêncio faz o resto. Os livros acumulam-se com os exames.
Apanhou-o era o meio da noite, e Vem, vem para fora, cá Uma mão agarra outra de um braço esticado puxado por um empurrão de genica contrastando com o sono lúcido do puxado, essa mão é de repente deixada a flutuar no ar, outras duas agarram o pescoço e um beijo fresco encosta-o a uma parede de chumbo, ou cor de chumbo numa escuridão quase total à sua volta E só consegue sentir os beijos repetidos de uma realidade na qual não acredita, relaxando com s olhos fechados agora, Mais, mais, as mãos passam-lhe pela roupa suada e pelo casaco largo demais enquanto os olhos ardem, Vem, vem O pesadelo bucólico das linhas a chiarem dos transportes e as poças entre as estações e as ruas pretas reflectidas pela humidade e pelos zumbidos dos candeeiros, uma entrada de porta que crepita com uma luz amarela bem no meio do núcleo dessa perdição, outra vez as mãos que lhe agarram agora no cinto e uma mão entre as pernas a sentir o pénis duro ainda sem saber porquê puxando-o para um tropeçar nas escadas um cheiro a linóleo e lixívia barata e fumo, Senta-te, mais beijos, uma frescura insuportável, è isto que eu tenho andado à procura a vida toda Borbulha uma colher e um garrote é apertado por uma fila de dentes brancos como giz, duros como diamante sorriem as narinas estão vermelhas e irritadas e tudo o que está em cima da mesa de vidro está minado, cartões, sumos e cinzeiros semeados de crateras lunares de cinza atrás dele mãos agarram-no pelo colarinho e por entre as pernas e ajeitam-no para se estender num sofá enquanto vozes ecoam em tipos de riso que nunca tinha antes ouvido, a braguilha é desapertada e o cinto arrancado e cavalga a impossibilidade, agora, já, rápido demais, antes de dormir bebem juntos algo minado, puxam de novo mãos e o pescoço macio encontra uma barba de dois dias roendo atrás das pálpebras a noite já não parece igual igualmente negra Meteram ácidos, Meteram o quê, ela sabe a água fresca e lip gloss sem ser pegajoso, os ruídos e tremores da distorção das colunas de som rebentam-lhe dentro do peito enquanto descem pelas escadas de uma cave e outra porta se abre e explode o som na face e no corpo todo dele grita a perfeição Estes são os meus amigos ele é o e a distorção e os gritos do rodopio de luzes ali à frente fazem perder tudo o resto numa confusão de sensações e suores frios, o corpo mexe-se descontroladamente e mãos e bacias e calças de ganga justas encostam-se ao seu implodir lento e descontrolado e dançam, dançam a noite toda sem saberem bem onde estão, a alucinação dos ácidos é sempre uma e só uma e é ela própria, de manhã o frio e a dura indiferença e anti-clímax da realidade, Elisa, Elisa, onde estás, às noites de novo tudo igual, como uma torrente, como uma tempestade incontrolável que vai e vem, as drogas, a perfeição, a destruição da minha própria pessoa para que tu possas viver em mim o meu amor incontrolável, as drogas, tu, tu, tudo, o descontrolo, tu puxando por mim na escuridão na noite o melhor sexo que já fiz e eu a morrer em ti Tu sempre tu Vem Toma Prova Dá-mo todo todo todo Todo Elisa Não Todo Tudo Tudo
Faz hoje 10 anos que Jeff Bukcley desapareceu no rio, só para encontrarem o seu corpo uns dias depois. Sem lugares comuns, sem dramatismo, sem nada demais. Só um simples obrigado pela música. O resto do post é para recordar.
sou um miúdo simples. É assim que gosto de pensar que sou, que gosto de me ver: um miúdo. Por enquanto, ainda vou tendo esse privilégio...
Não sei quando é que, um dia, vou acordar e olhar-me ao espelho, e ver uma face que não reconheço. um rosto cinzelado, uma cara cinzenta da barba por fazer, e ver um adulto. Não sei se quero envelhecer, ou não: gosto de estar assim, não sei como é estar-se mais velho. Não: sentir-se, mais velho. Sentir-me mais velho. Mais marido, mais pai, mais perto de uma morte anunciada. Não sei como é isso, sentir que dei mais um passo na jornada da minha vida. Pensava que sabia muito, aos dezassete. Mas sempre soube que não sabia nada. Agora tenho vinte anos. Vinte anos e meio, histórias para contar, e outras para tentar esquecer. Que tipo de ser humano sou? Que tipo de ser me tornei, que pessoa me fiz?
Muitas vezes gostava de ser diferente. Melhor, enquanto pessoa. Sei que há coisas que nunca conseguirei mudar. Nunca conseguirei mudar o facto de, por mais que tente ser o mais neutro possível, as pessoas dizerem sempre que não me acharam normal quando me conheceram pela primeira vez. Assusta-me um pouco a impossibilidade de ser banal. Suportável para o resto da sociedade, pelo menos. Mas não sei que diga. Não sei que pense. Não sei se devo gostar ou odiar tal característica. Porque: a vida é tão vasta... tão impossível de definir nos seus certos e nos seus errados, nos seus "talvez". Nas suas incongruências.
Ontem vi um pedaço de luz no passeio, no meio de uma estrela desenhada a pedras pretas. Antes de morrer, pediu-me um pouco de calor, e um pouco de tempo, de presente, para poder continuar a distanciar-se da realidade. Antes que pudesse fazer qualquer coisa, morreu, enrolada sobre si mesma. Apagando-se. Deixando de se lembrar de ela mesma.
James Hilton, no seu livro Horizonte Perdido, de 1933, imaginou a sua utopia: um paraíso terrestre. Situou num mosteiro tibetano e a este lugar baptizou como Shangri-la. Estamos em 2007, e são agora os Wraygunn a ensinar-nos sobre utopias. Ao 3º álbum, já é repetitivo dizer que são uma certeza no rock português. O caso não é assim tão simples. Na verdade, a poderosa estrutura que compõem os Wraygunn, é responsável por alguns dos maiores exercícios de rockabilly na história da música portuguesa. Depois da surpresa que foi Soul Jam, e mais recentemente Eclesiastes 1.11, que teve enorme sucesso em terras gaulesas, Shangri-la vem tornar explícita a evolução de Paulo Furtado, desde os seus idos tempos como elemento dos Tédio-Boys. Paulo Furtado, que é também o Legendary Tiger-Man, merece, excepcionalmente, um puro lugar comum: nasceu para a música. No entanto, Paulo Furtado já não é o típico front-man. O seu trabalho é imenso, mas já não é a sua voz a mais importante. Raquel Ralha e Selma Uamusse (que entrou para os Wraygunn já com o comboio em andamento) estão presentes em várias músicas, e tomam as rédeas tão bem e por diversas vezes, como na suave Hoola-hoop Woman, ou na deliciosamente cantável Love is my New Drug. A sensualidade e elegância são elementos que crescem assim de importância nas composições dos Wraygunn. Inicialmente, chegou a falar-se na possível participação de Ben Harper. Acabou por não se verificar, mas a nível instrumental, além do português Vidal (Blind Zero), temos Matt Verta-Rey (Speedball; e uma das metades dos Heavy Trash, onde se junta a Jon Spencer) a tocar guitarra em Just a Gambling Man. O funk, o soul, o rock, ainda um pouco de gospel, tudo ajuda ao groove, às batidas, às fortes pancadas que nos dá a música dos Wraygunn. E o exercício não pára, desde o ritmo do novo singles, She’s a go-go Dancer, até ao portento que é Love Letters from a Muthafucka. Shangri-la é um disco já maturado, joga com as suas próprias pausas, os seus momentos, deixa-se balancear entre os ritmos que só dão vontade de bater o pé, e dançar da forma mais excêntrica possível naquele instante, até aos suspiros, à respiração pesada, que traz consigo uma certa carga sexual. São eles: Wraygunn. Cada vez mais fortes. Ou muito me engano ou o melhor disco nacional de 2007 está encontrado, em Shangri-la, este paraíso perdido na Terra.
- Então como é que tu te chamas? - Elisa, e tu? Espero bem que não te chames José ou Marco ou Rafael, porque não suporto esses nomes. - Chamo-me João. A assoalhada a dançar atrás deles; apaixonou-se de imediato. Porém, o primeiro sinal: a sensação da música de fundo a tocar ao contrário,, ou algo a lembrar Jon Zorn, em tons de verde. Acompanhando a sensação de frio no estômago – claro. - Também estás aqui com estes artistas todos de pila grande, ou vieste só aqui trazer a tua irmã e ver se engatas alguém? Mas não tens cara disso… Tens, oh! Pois é,, tens cara de bebé. A desorientação inicial - Não! (Um riso), não… Não tenho uma irmã, estou aqui pelo… - És amigo da Rita? - Sou amigo da Rita, o que Alguém a chamou num grito gargalhado, estendendo a mão virando-se de costas, um breve num tom muito sub-repticiamente implorativo - Espera lá , Off she goes. O Dj está a mudar constantemente como as cores lá fora atrás das janelas abertas, atrás das cortinas púrpuras transparentes, são amigos de amigos de amigos; baixa mas com um sorriso oblíquo, olhos semicerrados como se estivesse ou pedrada, ou com sono; muito dengosa, tom permanentemente quase irónico, não houve tempo para mais mas o cabelo curto e laranja, ficou. Nessa noite: uma exposição conjunta de pinturas retiradas de um projecto post-noise de um conjunto de pintores e músicos daquela zona da cidade, com o epílogo aglutinador de uma dança feita durante horas seguidas, non stop, por uma asiática de vestido negro, arrastando os pés num círculo branco desenhado no chão, em silêncio sempre; sexo no segundo quarto entre uma retratista conhecida que usava peças do lixo para criar caras e dois músicos que tentavam introduzir de novo o kraut-rock ao pé dos armazéns junto ao rio – O seu amigo Rafael bêbado no chão numa zona esquecida do apartamento a segurar afincadamente a mochila preta onde guardava os desenhos que fazia, enquanto uma miúda de brinco no nariz e saia preta de linho lhe falava baixinho, pelo ouvido, ininterruptamente, de cócoras, e ele assentia com a cabeça. Alguém enchera a banheira com gelo para manter frias as cervejas e o vermute, mas dois tipos deviam ter achado que seria interessante enfiarem-se lá dentro numa experiência artística continuada e viva, então a casa de banho estava cheia com Alguém gritou - Alguém viu aquela cabra da Elisa, que lhe quero dar um beijo de boas-vindas? Gajos a aplaudirem e dois enregelados idiotas a darem um discurso dadaísta ininterrupto, gajas a coçarem a coçarem as calças, bêbados a gritarem tons de vivas e um tipo com uma câmara preta grande a filmar tudo. Nas chaise-longes conversava-se e desenhavam-se freneticamente rabiscos para tentar explicar qualquer coisa entre o design e a arquitectura, e alguns de agora disfarce descoberto mundanos comiam-se simplesmente nos puffs e numa marquise preta encostada à parede, roçando com as costas e as unhas um quadro grande pregado quase no tecto. Dentro de dez minutos, a Elisa pegaria nele, dir-lhe-ia ao ouvido coisas incríveis enquanto o puxava para um quarto para tentar perceber nesses pequenos segundos se ele era pintor, músico, escritor, ou ambos ou as três coisas, e, praticamente quase, violá-lo-ia, na mais incrível e explosiva noite de sexo que teve lúcido; amarrado, desamparado e deixado a abandonar, cinco minutos antes da maré encher.
O que me chateia no mês de Maio não são os testes todos que costumo ter. O que me chateia no mês de Maio é não conseguir escrever oir causa desses testes todos.
Vídeo da minha banda preferida, The Mars Volta, a improvisarem uma música do nada ao vivo durante quarenta minutos. Chama-se Abortion, the Other White meat. Que sacana de música! O que me lembra uma coisa:
Ando a revolver-me e revoltar-me com a minha, proto-humanidade; dantes amigos, pausas curtas e amantes embaraçados, mas desembaraçados, seborreia nos cabelos, e murmúrios, e beijos, lutando contra todo o silêncio absoluto do mundo, espelhado na minha cidade fria (Lisboa. É minha, se eu me sentir nela.) E então caímos na tua cama com medo ainda de invocar nomes, e os fantasmas dos nossos parentes a observarem-nos por cima do ombro de quem estaria por fora, e os cursostodos, a desfazerem-se na margem Sul, a unirem-se à língua de terra da 24 de Julho, e o Tejo ainda assim a correrpor cima, ou por baixo, as pessoas nuas a acordarem, regurgitadas pelo ventre da compaixão desconhecida. És um surrealista antes do ensaio desta banda. As alergias desfiguram a tua cara. Compro um jornal num quiosque do Areeiro. Sou um actor engasgado com a dor da infutilidade. E meto-me no carro. Lambo os enjoos do meu sono. As minhas queridas enxaquecas. E, sem pensar muito nisso, preparo-me para me perder outra vez.
Talvez um Ohner. Tem o som mais solitário que conheço, que me lembre ou possa imaginar num instrumento. Cortesia daqueles gajos nos filmes a tocarem aquelas melodias mais lentas e azuis, sozinhos, e ruas fumegantes por onde o protagonista se afasta. Será por isso, por ser um som triste, solitário e bonito que me interesso por ele? Espero bem que não. Também não posso cantar, como eu adoro cantar. Uma forma diferente de silêncio, talvez, já que é impossível fazer valer-me da Palavra. Ou outra marca qualquer, que sei eu. Sei que "o céu não foi feito para os pardais, por mais alto que eles voem". há um ecrã cinemático atrás, por entre cada cena, a desfiar a tapeçaria translúcida do sentido possível que estas